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Com materiais de baixo custo, laboratório cria dispositivos para devolver autonomia a pacientes

Publicada em 14/09/26 às 10:56h - 33 visualizações

por Rádio Nativa FM 92.5 Irituia


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 (Foto: Rádio Nativa FM 92.5 Irituia)

Uma colher adaptada, uma órtese ou um dispositivo feito de espuma podem parecer objetos simples. Para quem está em processo de reabilitação depois de um acidente grave, porém, eles podem representar a possibilidade de voltar a realizar sozinho uma atividade cotidiana, como se alimentar, escovar os dentes ou usar o celular.

É com esse propósito que funciona, desde 2019, o Laboratório de Tecnologia Assistiva (Labta) do Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), em Ananindeua. O espaço é utilizado pela equipe de Terapia Ocupacional para desenvolver soluções personalizadas que auxiliam pacientes durante a internação e no processo de recuperação. De janeiro a julho de 2026, o laboratório já produziu 1.052 dispositivos. Em todo o ano de 2025, foram confeccionados 1.988 recursos, entre órteses, coxins e adaptações.

A produção começa antes mesmo de qualquer material ser cortado ou moldado. O primeiro passo é entender a necessidade do paciente. A equipe avalia suas condições clínicas, limitações, rotina e as atividades que são importantes para sua vida. A partir daí, é pensada uma solução individualizada. “Não tem uma fórmula pronta, nem uma órtese pronta para distribuir. A gente olha para o paciente, vê qual é a necessidade dele e tenta trazer uma solução”, explica a terapeuta ocupacional Samanta Oliveira, que atua há quatro anos no Hospital Metropolitano.

As terapeutas ocupacionais Samanta Oliveira e Andressa Ataíde desenvolvem dispositivos personalizados no Labta para auxiliar pacientes na reabilitação, prevenção de complicações e retomada da autonomia. (Wagner Santana | O Liberal)

 

Paciente com amputação bilateral é um dos beneficiados pelos dispositivos

Um dos pacientes que vivenciam na prática os efeitos desse trabalho é Antônio Samuel Nascimento Silva, de 26 anos. Natural de Santa Maria do Pará, ele sofreu uma descarga elétrica enquanto trabalhava na extração de açaí em uma fazenda naquele município. O acidente provocou a amputação bilateral. Há mais de dois meses, Samuel está internado no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Metropolitano, onde passa pelo processo de recuperação.

Durante esse período, ele recebeu uma órtese personalizada produzida pelo Labta. A adaptação foi desenvolvida para ajudá-lo a realizar atividades que antes dependiam da ajuda da mãe, como se alimentar, escovar os dentes e utilizar o telefone. “Eu consigo comer sozinho, escovar os dentes só. Melhorou também para mexer no telefone”, conta.

Antes da adaptação, a dependência era maior. Até para escrever uma mensagem no celular, Samuel precisava da ajuda da mãe. “Tudo era minha mãe. Escovar os dentes, me dar comida, mexer no telefone. Eu mandava ela digitar para mim. Hoje em dia, não. Eu digito, mando áudio para todo mundo”, relata.

A mudança, segundo ele, trouxe não apenas mais independência, mas também novas possibilidades de interação com familiares e amigos. “Muita gente até pergunta: ‘Como é que tu digita, Samuel? Como é que tu escreve, manda mensagem?’. Aí eu pego e explico”, diz.

 

Soluções são desenvolvidas de acordo com a necessidade de cada paciente

A órtese utilizada por Samuel é um exemplo de como o laboratório transforma materiais acessíveis em soluções desenvolvidas de acordo com as necessidades individuais de cada paciente. Um dos dispositivos confeccionados pela equipe é feito de couro sintético e feltro, com uma estrutura mais rígida de PVC. Uma colher pode ser acoplada à peça, permitindo que o paciente com amputação bilateral dos membros superiores consiga levar o alimento até a boca.

O dispositivo é colocado no coto do paciente e utilizado durante a realização da atividade. “Eu utilizo esse dispositivo para o paciente que foi vítima de amputação bilateral. Então, o paciente perdeu os dois membros, ficou dependente em atividades que são significativas para ele. Alimentação, escovação de dente, uso do celular, dependendo do paciente, é uma atividade importante”, explica Samanta.

A terapeuta ocupacional destaca que a adaptação é apenas uma parte de um processo maior de reabilitação. Antes de prescrever o dispositivo, a equipe avalia as condições clínicas e funcionais do paciente. “Começa com os treinos de força, de ganho de amplitude, que são básicos da nossa profissão. Depois a gente vai evoluindo, pensando na funcionalidade, na autonomia, na independência”, afirma.

O objetivo é fazer com que o paciente consiga utilizar os recursos disponíveis para reconstruir sua rotina de uma nova maneira.

 

“Foi uma melhoria muito boa”, descreve paciente

Para Samuel, a chegada da órtese representou uma mudança concreta no cotidiano dentro do hospital. Quando soube que a equipe estava preparando o dispositivo especialmente para ele, a reação foi de alegria. “Fiquei muito alegre, demais. Eu sabia que ia melhorar para mim e tudo. Fiquei alegre demais”, conta.

Aos poucos, atividades que antes pareciam impossíveis começaram a ser retomadas. Samuel lembra, inclusive, de uma situação recente em que conseguiu pegar sozinho uma garrafa de água. “Eu falei: ‘Mãe, eu quero água’. A garrafa estava lá no quarto. Eu vim sozinho, peguei a garrafa, botei debaixo do braço e fui”, relata.

A lembrança mostra como pequenas conquistas podem ganhar uma dimensão muito maior para quem precisa se adaptar a uma nova condição física. “Foi uma melhoria muito boa”, resume Samuel.

O processo, no entanto, não foi fácil. Depois da cirurgia, Samuel conta que enfrentou momentos de tristeza. “Antes, logo quando eu fui para a cirurgia, eu chorava. Toda noite chorava. Chorei muito, muito mesmo. Hoje em dia, não”, afirma.

Agora, ele começa a enxergar novas possibilidades para a vida depois da alta hospitalar. A adaptação produzida pela equipe não elimina as dificuldades, mas ajuda a encontrar novos caminhos para realizar atividades que antes faziam parte da rotina.

O objetivo é fazer com que o paciente consiga utilizar os recursos disponíveis para reconstruir sua rotina de uma nova maneira. (Wagner Santana | O Liberal)

 

Tecnologia assistiva também é prevenção

Além de desenvolver recursos para aumentar a independência dos pacientes, o Labta produz dispositivos destinados à prevenção de complicações durante longos períodos de internação. Na clínica neurocirúrgica, por exemplo, a terapeuta ocupacional Andressa Ataíde acompanha pacientes que chegam da UTI, muitos deles vítimas de acidentes automobilísticos ou com traumatismos raquimedulares.

Uma das principais demandas é a utilização de dispositivos de descompressão, desenvolvidos para reduzir a pressão sobre determinadas regiões do corpo e ajudar na prevenção de lesões por pressão.

Um dos exemplos é a órtese de descompressão lateral. A peça é posicionada de forma a liberar áreas de contato do corpo com o leito e pode ser adaptada para diferentes biotipos. “Dependendo do biotipo do paciente, a gente adapta para que seja algo um pouco mais funcional”, explica Andressa.

A necessidade também determina o tipo de material utilizado. Para pacientes menores, pode ser utilizada uma estrutura predominantemente de espuma. Para pessoas com maior peso ou porte físico, a equipe pode recorrer ao PVC para garantir maior sustentação.

Há ainda dispositivos destinados à descompressão da cabeça, do calcâneo e de outras regiões do corpo. A escolha depende da avaliação individual de cada paciente. “Alguns recebem todos. Outros acabam recebendo só esse tipo de dispositivo ou algum muito específico, porque é a área de contato. Dependendo da fragilidade da pele da pessoa, a gente tenta munir o mais rápido possível”, afirma.

 

Produção dentro do próprio hospital

A existência de um espaço específico para a confecção dos dispositivos também é importante para a segurança de pacientes e profissionais. No Labta, a equipe consegue trabalhar com ferramentas e materiais sem precisar realizar esse tipo de atividade diretamente ao lado dos pacientes internados. O ambiente foi criado justamente para permitir a produção de forma mais organizada e segura.

A criação do laboratório surgiu a partir da necessidade observada pelos profissionais da Terapia Ocupacional diante do perfil dos pacientes atendidos pelo Hospital Metropolitano.

Segundo Andressa, a Terapia Ocupacional já possui uma relação histórica com o desenvolvimento de tecnologias assistivas, e a criação do laboratório permitiu levar esse conhecimento para dentro da rotina hospitalar.

Além de facilitar o atendimento, a produção interna permite respostas mais rápidas às necessidades que surgem durante a internação. “Tudo que a gente pode fazer que venha do hospital, a gente produz aqui, de materiais daqui, justamente para alcançar o nosso paciente de forma rápida, eficaz e sustentável”, explica.

 

Necessidade e criatividade

Por trás dos 1.052 dispositivos produzidos pelo laboratório nos primeiros meses de 2026 estão necessidades diferentes, histórias diferentes e pacientes que precisam encontrar novas formas de realizar atividades que antes pareciam simples. Para Samanta, o número também demonstra o crescimento da Terapia Ocupacional dentro do ambiente hospitalar e o reconhecimento da importância das órteses e adaptações para a qualidade de vida dos pacientes.

Mas o impacto do trabalho não pode ser medido apenas em números. “Na Terapia Ocupacional, a gente sempre usa uma palavra muito bonita, que é significado. A gente lida com histórias, com significados e com realidades”, afirma Andressa.

É nesse encontro entre necessidade e criatividade que materiais simples ganham novas funções. Um pedaço de PVC pode ajudar a proteger o corpo. Uma espuma pode reduzir a pressão sobre uma região fragilizada. Uma adaptação pode permitir que uma colher seja segurada novamente.

Para pacientes como Samuel, cada uma dessas pequenas conquistas representa algo maior: a possibilidade de recuperar, pouco a pouco, a autonomia e construir uma nova maneira de viver. “O paciente, quando recebe a notícia de que vai ter que amputar o membro, para ele é o fim. Na verdade, é um novo começo”, resume Samanta.

 

 

Fonte: OLiberal




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